Cada qual em cada canto
canta o mesmo canto
a diferença
de cada crença
é mera semelhança.
A vida é a mesma
a chuva é a mesma
o solo o sol
são os mesmos
o que difere
fere
A sentelha inata
que nos desperta
que nos mata
repete em cada ser
a incompreensão do viver.
E qualquer diferença é mera semelhança.
sábado, abril 06, 2024
Busca
Deixei a barba crescer
e o cabelo também.
Esqueci a monogamia
do sol e sem pensar
admirava a promiscuidade
da lua...
Minha mãe perguntava,
Cadê meu filho?
E eu respondia,
Foi plantar milho.
Ela não entendia
a resposta e eu
tampouco a pergunta.
Mas comecei a fazer poesia:
Gostava das rimas ricas
com meus cabelos emaranhados,
contava a métrica
de cada verso
no meu quarto bagunçado,
compunha sonetos
nos cigarros apagados.
Todos olhavam com
tamanha surpresa
a minha estranheza.
Perguntavam uníssono,
Cadê o Tiago?
E eu respondia,
Foi pro diabo.
Ficavam todos estupefatos,
e eu na minha estreiteza
ia pro meu quarto
compor decassílabos
sáficos.
Firmei laços com
as traças das
prateleiras e gritando
nas ruas me abalei
sem eira nem beira.
Mas quando me olhei
no espelho exclamei,
O que é isso, um eco
respondeu, É falta
de juízo.
Então cortei o cabelo,
fiz a barba,
tomei um banho,
escovei os dentes,
queimei minha poesia
de concreto.
Deixei de plantar milho
e de fazer companhia
ao diabo num estalo:
Hoje em dia tenho uma namorada,
Tenho uma reputação a zelar,
Frequento toda sexta-feira um bar,
Mas bebo pouco pra pegar a estrada.
Creio em deus, na propriedade privada
E na moral que costumam pregar.
Sei que com dois posso fazer um par
E não preciso mais saber de nada.
Minha mãe me gosta assim desse jeito,
Se orgulha de me ver ser repetido,
E agora sou um homem de respeito.
E o que num tempo eu fui, foi esquecido:
Hoje eu uso gravata, eu uso terno,
Porque hoje em dia eu me faço moderno.
e o cabelo também.
Esqueci a monogamia
do sol e sem pensar
admirava a promiscuidade
da lua...
Minha mãe perguntava,
Cadê meu filho?
E eu respondia,
Foi plantar milho.
Ela não entendia
a resposta e eu
tampouco a pergunta.
Mas comecei a fazer poesia:
Gostava das rimas ricas
com meus cabelos emaranhados,
contava a métrica
de cada verso
no meu quarto bagunçado,
compunha sonetos
nos cigarros apagados.
Todos olhavam com
tamanha surpresa
a minha estranheza.
Perguntavam uníssono,
Cadê o Tiago?
E eu respondia,
Foi pro diabo.
Ficavam todos estupefatos,
e eu na minha estreiteza
ia pro meu quarto
compor decassílabos
sáficos.
Firmei laços com
as traças das
prateleiras e gritando
nas ruas me abalei
sem eira nem beira.
Mas quando me olhei
no espelho exclamei,
O que é isso, um eco
respondeu, É falta
de juízo.
Então cortei o cabelo,
fiz a barba,
tomei um banho,
escovei os dentes,
queimei minha poesia
de concreto.
Deixei de plantar milho
e de fazer companhia
ao diabo num estalo:
Hoje em dia tenho uma namorada,
Tenho uma reputação a zelar,
Frequento toda sexta-feira um bar,
Mas bebo pouco pra pegar a estrada.
Creio em deus, na propriedade privada
E na moral que costumam pregar.
Sei que com dois posso fazer um par
E não preciso mais saber de nada.
Minha mãe me gosta assim desse jeito,
Se orgulha de me ver ser repetido,
E agora sou um homem de respeito.
E o que num tempo eu fui, foi esquecido:
Hoje eu uso gravata, eu uso terno,
Porque hoje em dia eu me faço moderno.
VIII
Vai mais um dia rápido como um relâmpago
E eu me vejo de novo tentando dormir
A vida vai passando e encurtando o porvir
Enquanto eu me sinto velho cá em meu âmago.
Mas sou jovem ainda, tenho dezenove
Anos! Por que me sinto velho de repente?
Um corte bestial se vai rasgando meu ventre.
A vida é um punhal que me apresenta à morte!
A morte diz: " Vou te levar para um lugar
Onde a jovem velhice se sinta bem.
Os dias passam e tu não vais te preocupar."
(Acordo num salto) Ouço vozes pelos cantos.
Os sussurros misturam-se atrozes aos meus prantos:
"Carpe Diem... Carpe Diem... Carpe Diem... Carpe Diem..."
E eu me vejo de novo tentando dormir
A vida vai passando e encurtando o porvir
Enquanto eu me sinto velho cá em meu âmago.
Mas sou jovem ainda, tenho dezenove
Anos! Por que me sinto velho de repente?
Um corte bestial se vai rasgando meu ventre.
A vida é um punhal que me apresenta à morte!
A morte diz: " Vou te levar para um lugar
Onde a jovem velhice se sinta bem.
Os dias passam e tu não vais te preocupar."
(Acordo num salto) Ouço vozes pelos cantos.
Os sussurros misturam-se atrozes aos meus prantos:
"Carpe Diem... Carpe Diem... Carpe Diem... Carpe Diem..."
domingo, junho 07, 2020
LVII
Um querer que me faz tão triste assim
Uma tristeza que é sempre tão leal
Que se esconde e se mostra e é sempre igual
E que sem consentir reside em mim
E que vai e que vem: volta mortal
E que dói como um não invés do sim
E me deixa saudoso com seu fim
Pois comigo se faz tão natural
E sozinho me vou sem ter ninguém
No caminho uma luz em tom de azul
Ilumina a passagem do meu bem
Que me aquece e me esquece por prazer
Quando o corpo gelado do meu ser
Sente à espinha os ventos vindos do sul
Uma tristeza que é sempre tão leal
Que se esconde e se mostra e é sempre igual
E que sem consentir reside em mim
E que vai e que vem: volta mortal
E que dói como um não invés do sim
E me deixa saudoso com seu fim
Pois comigo se faz tão natural
E sozinho me vou sem ter ninguém
No caminho uma luz em tom de azul
Ilumina a passagem do meu bem
Que me aquece e me esquece por prazer
Quando o corpo gelado do meu ser
Sente à espinha os ventos vindos do sul
sexta-feira, março 13, 2020
Trauma
Tamanha foi sua dificuldade
com a língua portuguesa
no colégio, que quando
adulto não sabia o que
era crase, mas conhecia
muito bem os hiatos.
Foi assim por todo a sua vida:
hiatizando o que era para crasear.
Morreu só.
com a língua portuguesa
no colégio, que quando
adulto não sabia o que
era crase, mas conhecia
muito bem os hiatos.
Foi assim por todo a sua vida:
hiatizando o que era para crasear.
Morreu só.
Cercando a lua
estão meus olhos
lavados de escuridão
atravessando nuvens
quebrando ventos
acordando as estrelas
que sonham distância
espantando os cometas
que vencem os séculos
Estão meus olhos
cercando a lua
implorando altura
num sentimento de posse
que o amor nos implica
E a lua - serena, calma
que não rejeita um amante sequer
me olha com seu grande
olhar de compaixão
e lacrimejando sua luz
sobre minha paisagem, diz:
-Hoje dormirei contigo.
estão meus olhos
lavados de escuridão
atravessando nuvens
quebrando ventos
acordando as estrelas
que sonham distância
espantando os cometas
que vencem os séculos
Estão meus olhos
cercando a lua
implorando altura
num sentimento de posse
que o amor nos implica
E a lua - serena, calma
que não rejeita um amante sequer
me olha com seu grande
olhar de compaixão
e lacrimejando sua luz
sobre minha paisagem, diz:
-Hoje dormirei contigo.
Devaneio cotidiano
Por tantos sacrifícios cheguei aqui,
tantas guerras e revoluções,
tanta morte e tanta vida jogadas
mundo a fora - tudo vão.
Tudo:
O que eu não sei, o que ninguém sabe,
O que fingimos saber:
O que poderá se fazer?
Os minúsculos componentes da matéria.
Cada simples célula do meu corpo.
A infinitude do universo.
Há vida lá fora?
Há vida?
O sol ofusca meus olhos.
O azul do céu esbranquiçado
pelas nuvens deslumbra-os.
Mas ao voltar, vejo-me novamente
insignificante, burro e mesquinho
perante tudo.
Num mundo parelelo, o cigarro vai deixando
uma cinza cilindrica no cinzeiro
e a fumaça vai lentamente
se esvaindo no espaço.
tantas guerras e revoluções,
tanta morte e tanta vida jogadas
mundo a fora - tudo vão.
Tudo:
O que eu não sei, o que ninguém sabe,
O que fingimos saber:
O que poderá se fazer?
Os minúsculos componentes da matéria.
Cada simples célula do meu corpo.
A infinitude do universo.
Há vida lá fora?
Há vida?
O sol ofusca meus olhos.
O azul do céu esbranquiçado
pelas nuvens deslumbra-os.
Mas ao voltar, vejo-me novamente
insignificante, burro e mesquinho
perante tudo.
Num mundo parelelo, o cigarro vai deixando
uma cinza cilindrica no cinzeiro
e a fumaça vai lentamente
se esvaindo no espaço.
Escondi tudo de mais
valioso que eu tinha
numa caixa de papelão
na parte mais alta
do armário mais alto
que tinha lá em casa
Todos passavam e
olhavam-na indiferente,
somente eu a fitava
orgulhoso por ser
o único que sabia
o que ela significava
O tempo passou e eu a
esqueci e a deixei ser
engolida pelas teias de
aranha e pelas traças
Um dia desses, curioso,
me dei o trabalho
de pegá-la e limpá-la
quase desmanchando
em minhas mãos:
Abri-a com cuidado:
chorei
valioso que eu tinha
numa caixa de papelão
na parte mais alta
do armário mais alto
que tinha lá em casa
Todos passavam e
olhavam-na indiferente,
somente eu a fitava
orgulhoso por ser
o único que sabia
o que ela significava
O tempo passou e eu a
esqueci e a deixei ser
engolida pelas teias de
aranha e pelas traças
Um dia desses, curioso,
me dei o trabalho
de pegá-la e limpá-la
quase desmanchando
em minhas mãos:
Abri-a com cuidado:
chorei
XLIII
Eu não soube o que pensar... olhei-o...
Tinha muita fome e estava com frio,
No rosto alguma vertente de um rio
Que de tanto chover estava feio.
Talvez trouxesse algum amor no seio,
Talvez no peito ele tivesse um brio,
Ou talvez fosse só mágoa, sangue e ódio
E fosse de infinitas dores cheio.
Tinha dois companheiros de desgraça:
Era um cusco véio e uma cachaça:
O cusco amenizava a solidão,
A cachaça a fome, o frio e o tormento...
Aproximei-me devagar, atento...
E ele sussurrou: Prazer, sou João.
Tinha muita fome e estava com frio,
No rosto alguma vertente de um rio
Que de tanto chover estava feio.
Talvez trouxesse algum amor no seio,
Talvez no peito ele tivesse um brio,
Ou talvez fosse só mágoa, sangue e ódio
E fosse de infinitas dores cheio.
Tinha dois companheiros de desgraça:
Era um cusco véio e uma cachaça:
O cusco amenizava a solidão,
A cachaça a fome, o frio e o tormento...
Aproximei-me devagar, atento...
E ele sussurrou: Prazer, sou João.
L
A lua alta cobrindo o firmamento;
O vento testemunha do meu pranto
E um manto estrelado num momento
Sente comigo o mesmo desencanto.
A madrugada fria, o tempo lento;
Meu sofrimento canta um triste canto
De quanto choro, dor e desalento
Que só sabe cantar quem chorou tanto.
E quando busco a causa disso tudo
Fico mudo e não sei o que em mim vejo:
Eu sobejo em mentiras e me iludo.
Estudo não saber o que desejo;
Calado arquejo - Penso o infinito:
Esse vazio imenso que em mim grito.
O vento testemunha do meu pranto
E um manto estrelado num momento
Sente comigo o mesmo desencanto.
A madrugada fria, o tempo lento;
Meu sofrimento canta um triste canto
De quanto choro, dor e desalento
Que só sabe cantar quem chorou tanto.
E quando busco a causa disso tudo
Fico mudo e não sei o que em mim vejo:
Eu sobejo em mentiras e me iludo.
Estudo não saber o que desejo;
Calado arquejo - Penso o infinito:
Esse vazio imenso que em mim grito.
domingo, julho 12, 2015
A primeira lágrima
Brilhou nos olhos
Repentinamente,
Ofuscando a visão.
Não se encontra
Força para enxugá-la
E ela traça livre
O próprio caminho
Por entres as rugas
Do rosto franzido:
Não há razão nos sentidos:
Silêncio...
Silêncio e mais nada.
A lágrima chora deixando
Marca de amor
Na pele tocada e
Um rastro lúgubre
de lágrima
Rolada.
Ela acaricia o rosto
Com sofreguidão.
Beija a boca
Demoradamente.
Perde-se na vertigem
Daquela tristeza,
Traçando seu caminho
De lágrima solitária...
Chegando ao fim,
Agarra-se em desespero
Aos poros
Daquele rosto
Que lavou!
Apaixonada, sente
A morte iminente -
A morte iminente
De lágrima
Rolada -
Saudade dos olhos!
Saudade do beijo!
Saudade da pele
Que acariciou!
O rosto também a segura
Fortemente pelos átomos,
Enquanto lá em cima
Brilham lágrimas
Que não ofuscam...
Ela cai.
Tanto esforço vão.
Lá vai ela cumprir,
Abandonada,
O seu destino infeliz
de lágrima
Rolada.
Morrendo sobre o peito
Que lhe deu a vida.
Brilhou nos olhos
Repentinamente,
Ofuscando a visão.
Não se encontra
Força para enxugá-la
E ela traça livre
O próprio caminho
Por entres as rugas
Do rosto franzido:
Não há razão nos sentidos:
Silêncio...
Silêncio e mais nada.
A lágrima chora deixando
Marca de amor
Na pele tocada e
Um rastro lúgubre
de lágrima
Rolada.
Ela acaricia o rosto
Com sofreguidão.
Beija a boca
Demoradamente.
Perde-se na vertigem
Daquela tristeza,
Traçando seu caminho
De lágrima solitária...
Chegando ao fim,
Agarra-se em desespero
Aos poros
Daquele rosto
Que lavou!
Apaixonada, sente
A morte iminente -
A morte iminente
De lágrima
Rolada -
Saudade dos olhos!
Saudade do beijo!
Saudade da pele
Que acariciou!
O rosto também a segura
Fortemente pelos átomos,
Enquanto lá em cima
Brilham lágrimas
Que não ofuscam...
Ela cai.
Tanto esforço vão.
Lá vai ela cumprir,
Abandonada,
O seu destino infeliz
de lágrima
Rolada.
Morrendo sobre o peito
Que lhe deu a vida.
Composição
Procuro no escuro
tudo o que é
e que seja:
que sempre foi
tateio no vento
as palavras
que não aprendi
a dizer
e quando perco
minhas forças
o corpo pende
os braços caem
e tudo o que
sempre foi
não é, nem será,
apenas está
e as palavras
que não aprendi
a dizer são
as únicas que existem
a poesia se esconde,
o sentimento não
sabe gritar
sua liberdade
o escuro torna-se
cada vez mais
escuro e escuro
e uma lágrima cai:
uma lágrima é a prova
da mudez da tristeza
e o silêncio, sim, sempre
foi, é e também será.
tudo o que é
e que seja:
que sempre foi
tateio no vento
as palavras
que não aprendi
a dizer
e quando perco
minhas forças
o corpo pende
os braços caem
e tudo o que
sempre foi
não é, nem será,
apenas está
e as palavras
que não aprendi
a dizer são
as únicas que existem
a poesia se esconde,
o sentimento não
sabe gritar
sua liberdade
o escuro torna-se
cada vez mais
escuro e escuro
e uma lágrima cai:
uma lágrima é a prova
da mudez da tristeza
e o silêncio, sim, sempre
foi, é e também será.
Meu coração tem amores
que nem eu conheço
tem tantos segredos
queimando flores
tem desconhecidos horrores
que me enchem de medos
Meu coração tem dores
que nem eu sinto
tem cores
de vinho tinto
banhando com seu vermelho
o espelho
do meu sonho lindo
Meu coração de tanto sentir
sem saber que se sente
acabou indiferente
ao porvir:
de tanto mentir
sem saber que mente.
Se é partido que se vai
Se é perdido que se vem
Como entrar nesse trem,
Pai?
Como a vida desse lírio
É bonito que se vem
Ressequido que se vai,
Filho.
Como a pergunta que se faz
A resposta que se tem
A morte se desfaz.
Se é sabido que se vai
Desconhecido por que se vem
Por que lutar também,
Pai?
Para que esse estribilho
Que na vida canta e voa
Ressoe em outros corações,
Filho.
Se é perdido que se vem
Como entrar nesse trem,
Pai?
Como a vida desse lírio
É bonito que se vem
Ressequido que se vai,
Filho.
Como a pergunta que se faz
A resposta que se tem
A morte se desfaz.
Se é sabido que se vai
Desconhecido por que se vem
Por que lutar também,
Pai?
Para que esse estribilho
Que na vida canta e voa
Ressoe em outros corações,
Filho.
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