sábado, abril 06, 2024

VIII

Vai mais um dia rápido como um relâmpago
E eu me vejo de novo tentando dormir
A vida vai passando e encurtando o porvir
Enquanto eu me sinto velho cá em meu âmago.

Mas sou jovem ainda, tenho dezenove
Anos! Por que me sinto velho de repente?
Um corte bestial se vai rasgando meu ventre.
A vida é um punhal que me apresenta à morte!

A morte diz: " Vou te levar para um lugar
Onde a jovem velhice se sinta bem.
Os dias passam e tu não vais te preocupar."

(Acordo num salto) Ouço vozes pelos cantos.
Os sussurros misturam-se atrozes aos meus prantos:
"Carpe Diem... Carpe Diem... Carpe Diem... Carpe Diem..."

domingo, junho 07, 2020

LVII

Um querer que me faz tão triste assim
Uma tristeza que é sempre tão leal
Que se esconde e se mostra e é sempre igual
E que sem consentir reside em mim

E que vai e que vem: volta mortal
E que dói como um não invés do sim
E me deixa saudoso com seu fim
Pois comigo se faz tão natural

E sozinho me vou sem ter ninguém
No caminho uma luz em tom de azul
Ilumina a passagem do meu bem

Que me aquece e me esquece por prazer
Quando o corpo gelado do meu ser
Sente à espinha os ventos vindos do sul

sexta-feira, março 13, 2020

Trauma

Tamanha foi sua dificuldade
com a língua portuguesa
no colégio, que quando
adulto não sabia o que
era crase, mas conhecia
muito bem os hiatos.
Foi assim por todo a sua vida:
hiatizando o que era para crasear.
Morreu só.
A felicidade do corpo
Da mão na nuca
Dos cabelos na mão
Do revés do não
Do rosto no rosto
Do rosto na pele
Do lábio no lábio
Do dente no lábio
Do lábio na língua
Da língua na língua
Da língua no corpo
Do corpo no corpo
Do corpo na mão
Da mão espalmada
Sobre o ventre dela.
A beleza
da tristeza
se fez nascer
quando a felicidade
por maldade
gestante da dor
gerou o amor.
Cercando a lua
estão meus olhos
lavados de escuridão
atravessando nuvens
quebrando ventos
acordando as estrelas
que sonham distância
espantando os cometas
que vencem os séculos
Estão meus olhos
cercando a lua
implorando altura
num sentimento de posse
que o amor nos implica

E a lua - serena, calma
que não rejeita um amante sequer
me olha com seu grande
olhar de compaixão
e lacrimejando sua luz
sobre minha paisagem, diz:
-Hoje dormirei contigo.

Devaneio cotidiano

Por tantos sacrifícios cheguei aqui,
tantas guerras e revoluções,
tanta morte e tanta vida jogadas
mundo a fora - tudo vão.
Tudo:
O que eu não sei, o que ninguém sabe,
O que fingimos saber:
O que poderá se fazer?
Os minúsculos componentes da matéria.
Cada simples célula do meu corpo.
A infinitude do universo.
Há vida lá fora?
Há vida?
O sol ofusca meus olhos.
O azul do céu esbranquiçado
pelas nuvens deslumbra-os.
Mas ao voltar, vejo-me novamente
insignificante, burro e mesquinho
perante tudo.

Num mundo parelelo, o cigarro vai deixando
uma cinza cilindrica no cinzeiro
e a fumaça vai lentamente
se esvaindo no espaço.
Escondi tudo de mais
valioso que eu tinha
numa caixa de papelão
na parte mais alta
do armário mais alto
que tinha lá em casa

Todos passavam e
olhavam-na indiferente,
somente eu a fitava
orgulhoso por ser
o único que sabia
o que ela significava

O tempo passou e eu a
esqueci e a deixei ser
engolida pelas teias de
aranha e pelas traças

Um dia desses, curioso,
me dei o trabalho
de pegá-la e limpá-la
quase desmanchando
em minhas mãos:
Abri-a com cuidado:
chorei

XLIII

Eu não soube o que pensar... olhei-o...
Tinha muita fome e estava com frio,
No rosto alguma vertente de um rio
Que de tanto chover estava feio.

Talvez trouxesse algum amor no seio,
Talvez no peito ele tivesse um brio,
Ou talvez fosse só mágoa, sangue e ódio
E fosse de infinitas dores cheio.

Tinha dois companheiros de desgraça:
Era um cusco véio e uma cachaça:
O cusco amenizava a solidão,

A cachaça a fome, o frio e o tormento...
Aproximei-me devagar, atento...
E ele sussurrou: Prazer, sou João.

L

A lua alta cobrindo o firmamento;
O vento testemunha do meu pranto
E um manto estrelado num momento
Sente comigo o mesmo desencanto.

A madrugada fria, o tempo lento;
Meu sofrimento canta um triste canto
De quanto choro, dor e desalento
Que só sabe cantar quem chorou tanto.

E quando busco a causa disso tudo
Fico mudo e não sei o que em mim vejo:
Eu sobejo em mentiras e me iludo.

Estudo não saber o que desejo;
Calado arquejo - Penso o infinito:
Esse vazio imenso que em mim grito.

domingo, julho 12, 2015

A primeira lágrima
Brilhou nos olhos
Repentinamente,
Ofuscando a visão.
Não se encontra
Força para enxugá-la
E ela traça livre
O próprio caminho
Por entres as rugas
Do rosto franzido:

Não há razão nos sentidos:
Silêncio...
Silêncio e mais nada.
A lágrima chora deixando
Marca de amor
Na pele tocada e
Um rastro lúgubre
de lágrima
Rolada.

Ela acaricia o rosto
Com sofreguidão.
Beija a boca
Demoradamente.
Perde-se na vertigem
Daquela tristeza,
Traçando seu caminho
De lágrima solitária...

Chegando ao fim,
Agarra-se em desespero
Aos poros
Daquele rosto
Que lavou!
Apaixonada, sente
A morte iminente -
A morte iminente
De lágrima
Rolada -

Saudade dos olhos!
Saudade do beijo!
Saudade da pele
Que acariciou!

O rosto também a segura
Fortemente pelos átomos,
Enquanto lá em cima
Brilham lágrimas
Que não ofuscam...

Ela cai.
Tanto esforço vão.
Lá vai ela cumprir,
Abandonada,
O seu destino infeliz
de lágrima
Rolada.

Morrendo sobre o peito
Que lhe deu a vida.

Composição

Procuro no escuro
tudo o que é
e que seja:
que sempre foi

tateio no vento
as palavras
que não aprendi
a dizer

e quando perco
minhas forças
o corpo pende
os braços caem

e tudo o que
sempre foi
não é, nem será,
apenas está

e as palavras
que não aprendi
a dizer são
as únicas que existem

a poesia se esconde,
o sentimento não
sabe gritar
sua liberdade

o escuro torna-se
cada vez mais
escuro e escuro
e uma lágrima cai:

uma lágrima é a prova
da mudez da tristeza
e o silêncio, sim, sempre
foi, é e também será.
Morreu meu avô.
Velho e abatido.
Morreu aos 69 anos:
Culpa do cigarro.

Morreu de um câncer
Na garganta que o
Levou em pouco mais
De seis meses.

Lembrei disso por
Estar com um
Cigarro na mão agora,

No qual, esporadicamente,
Dou uma tragada:
Como é bom o morrer!
Meu coração tem amores
que nem eu conheço
tem tantos segredos
queimando flores
tem desconhecidos horrores
que me enchem de medos
Meu coração tem dores
que nem eu sinto
tem cores
de vinho tinto
banhando com seu vermelho
o espelho
do meu sonho lindo
Meu coração de tanto sentir
sem saber que se sente
acabou indiferente
ao porvir:
de tanto mentir
sem saber que mente.
Em cada passo
que vai trilhando
o caminho que faço.
Sinto que passo.

E o meu luto
do tempo que morre
é cada minuto.
E eu não luto.

E permaneço mudo
sempre querendo
mudar tudo.
E nunca mudo.

Eu sinto que passo.
Mas não luto.
Mas não mudo.
Se é partido que se vai
Se é perdido que se vem
Como entrar nesse trem,
Pai?

Como a vida desse lírio
É bonito que se vem
Ressequido que se vai,
Filho.

Como a pergunta que se faz
A resposta que se tem
A morte se desfaz.

Se é sabido que se vai
Desconhecido por que se vem
Por que lutar também,
Pai?

Para que esse estribilho
Que na vida canta e voa
Ressoe em outros corações,
Filho.

Respira essa paisagem

porque quando perceberes

que estás de passagem

será tarde para teres

essa aragem

a teu dispor.



Respira com a dor

de despedi-la em breve

porque é leve

a tua vida.

Ligando os pontinhos um a um
Eu faço nas estrelas
O rosto dela
Costurado em alto relevo:

A lua se torna irrelevante.

XIX

Pássaros cantando canto de horror?
Eu os escuto, eles estão com medo.
Sim!... alguém descobriu-lhes o segredo
De não saberem mais cantar amor.

Agora, voa torto o beija-flor
De flor em flor não sabe mais voar
Parece que não mais sabe amar
E que de súbito encheu-se de dor...

O quero-quero não cuida seu ninho,
Nem o joão de barro da construção,
Nem mesmo a coruja da noite escura,

O pavão perdeu sua formosura,
E a garganta do rouxinol então
Foi atravessada por um espinho...

quinta-feira, junho 18, 2015

Será?
Uma pergunta que
frusta esperanças.
Quando estou quase
certo ela rasga
meu pensamento.

Maldito futuro
do verbo ser!
Quando é que
tu será presente
sem interrogação?

Enquanto isso
eu sigo aqui
sem definição.